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4 - Paternidade da Invenção do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira
O artigo de
Rui Moreria de Sá e Guerra inicia com a discussão da paternidade da invenção do
fábrico de papel com pasta de madeira mas, como o próprio diz, tem a ansia de
defender a tese que atribui a invenção a Francisco Joaquim Moreira de Sá, não
deixando no entanto de enumerar teses que apontam outros nomes.
Sabe-se que
devido à escassez de trapo desde pelo 1765 começaram a fazer-se experiências
para produção de papel sem trapo com matéria prima vegetal. O jornalista das
Caldas da Rainha, Raúl Proença, escreveu em «Breve Notícia sobre a Indústria de
Papel» que aparece publicado em «Anais das Bibliotecas e Arquivos» que a
paternidade do dito invento se deve a Mathias Koop. Raúl Proença apelida os
defensores da tese de Francisco Joaquim Moreira de Sá de “patrioteiros
nunalvarescos”.
Oficialmente
a pasta de madeira mecânica, ou seja obtida por métodos mecânicos, maceração,
foi inventada por um alemão Friedrich Gottlob Keller em 1840, porém em 1801, um
inglês, Mathias Koop terá escrito um livro para o qual terá utilizado palha e
restos de papel velho para o produzir. Não fazendo referência a nenhum
documento em particular que sustente estas informações isto se pode ler nas
mais diversas fontes disponíveis na Internet.
Em a “Rota do Papel do Vale do Ceira e da Serra da Lousã – A Fábrica de
Papel do Boque” de Luís Filipe Correia Martins, lê-se que «1802 – Na Quinta da
Cascalheira é fundada por Francisco Joaquim Moreira de Sá a Fábrica de Papel de
Vizela. Foi construída pelo engenheiro inglês Tomás Bishop e nela se crê que
tenha sido experimentada pela primeira vez a nível mundial a pasta de papel
recorrendo a elementos vegetais, contrariando a versão desta patente a
Friedrich Gottlob Keller em 1840.» Por outro lado em «A Indústria na Vila de
Alenquer (1565-1931)» de José Henrique Tomé Lourenço é dito que «Sobre este
novo processo, deve acrescentar-se que a fábrica de papel da Cascalheira –
Vizela reinvindica o título de ter sido a primeira no mundo a fazer papel a
partir da massa de madeira, um título algo contestado, como quase sempre
acontece relativamente às inovações ou inventos técnicos. Fundado em 1802 por
Francisco Joaquim Moreira de Sá, o estabelecimento teve o engenheiro inglês
Thomas Bishop como sócio-gerente, sendo bem provavel que tenha sido este último
a trazer para Portugal a nova técnica, uma vez que tal invento é atribuído a um seu
conterrâneo, Mathias Koop em 1801.»
Voltando a Rui Moreira de Sá e Guerra podemos embrenharmo-nos em antigos
documentos que suportam a tese de Francisco Joaquim Moreira de Sá ou de Thomas
Bishop. Assim este refere a publicação de um Ode de José Raimundo de Passos de
Proben Barbosa da Quinta de Caneiros nas proximidades de Guimarães e que foi
juíz de fora da vila de Caxoeira no Brasil por decreto de 25-4-1804. O Ode a
que se faz referência tem um extenso título como era moda na época
«Estabelecendo-se uma grande fábrica de papel feito de vegetais (a primeira
deste género que se conhece) na Quinta de Sá junto ao rio Vizela, pelo senhor
Francisco Joaquim Moreira de Sá, fidalgo da casa de Sua Magestade, Cavaleiro
confesso da Ordem de Cristo, e senhor da dita Quinta; celebra o dito
interessante invento o senhor José Raimundo de Passos de Proben Barbosa, juíz
de fora da vila de Caxoeira, na seginte Ode, dada à luz por uma amigo de ambos
e da Pátria.» O Ode não tem data de publicação mas estima-se ser de 1804 sendo
que o mesmo vem dotado de notas explicativas que ajudam na sua interpretação.
«Mas o varão sapiente arcanos abre;
Nem lhe é dado pisar trilhadas vias!
Agrestes produções da natureza
Darão matéria à pluma
…
Astro que lhe influi, propício
Que luzes vibra em torno ao Jove luso»
Ele não produz papel pelo processo antigo, não pisa trilhadas vias, mas
abre arcanos porque inova o fabrico com pasta de madeira. O astro propiciador é
António de Araújo Azevedo que concorreu em Londres para resolver o hábil Thomas
Bishop a vir para Portugal e trabalhar com varão sapiente, Francisco Joaquim
Moreira de Sá. O Jove luso é o Príncipe Regente D. João que recebeu as radiações
daquele astro e as despachou favoravelmente. Proben celebra o invento com sendo
de 1802 que é a data provável do mesmo.
Já se fez referência no capítulo anterior que a fábrica recebeu recebeu
autorização régia para a sua construção em aviso de 13 de Dezembro de 1802.
Terá sido pois antes que Francisco Joaquim Moreira de Sá se dirigiu em versos
ao Príncipe regente D. João e à Princesa Carlota Joaquina, escritos no novo
papel e que buscavam o apoio régio:
«Príncipe Augusto! Tu o impulso deste!
A química e os desejos trabalhraram;
Não debalde, Senhor! Que o fruto é este!»
A documentação não é conclusiva quanto à data do primeiro papel fabricado
por Francisco Joaquim Moreira de Sá mas aponta para que seja de pelo menos
1802. Ora esta data é posterior à data em que Mathias Koop publicou o seu livro
feito com papel produzido com palha e assim não se pode atribuir o invento a
Moreira de Sá, porém é bem provável que o tenha conseguido produzir antes mas
só nesse ano já com Thomas Bishop e com a fábrica que vinha a construir desde
pelo menos 1798 se viu em condições de pedir autorização para o seu fabrico em
escala industrial.
Não se conseguindo provar a antecipação de Francisco Joaquim Moreira de Sá
a Mathias Koop parece muito claro que o papel com pasta de madeira foi fabricado
quase 40 anos antes da invenção de Friedrich Gottlob Keller. Em qualquer um dos casos
fica explícito que Francisco Joaquim Moreira de Sá foi pioneiro na utilização
industrial desta técnica. Pena é que na documentação notarial conhecida não
haja referências a que tipo de matéria vegetal usou Francisco Joaquim Moreira
de Sá para produzir o seu papel pois só assim se poderia comparar directamente
este invento com o de Friedrich Gottlob Keller. Escreveu Alberto Vieira Braga em «Curiosidades de
Guimarães», a matéria seria polpa de pinheiro, a ser assim a pasta de madeira
mecânica foi inventada para a fábrica de Moreira de Sá em 1802.
Permanece
porém a disputa da paternidade do invento entre Francisco Joaquim Moreira de Sá
e Thomas Bishop, o seu engenheiro inglês. Já no capítulo anteriror se disse que
a associação entre ambos foi uma combinação de interesses. Em 1805 no Alvará da
fábrica está bem explícito que seria Thomas Bishop quem possuiria o domínio
técnico para a produção de papel com materias vegetais e que ele ficava
obrigado a revelar tudo quanto sabia e viesse ainda a descobrir no processo de
fabrico de papel com essa nova técnica. Também parece óbvio que se Francisco
Joaquim Moreira de Sá dominasse plenamente a técnica não precisaria de Thomaz
Bishop.
Antes, em
1804 na escritura da fábrica um outro sentido se toma sobre as competências de
Francisco Joaquim Moreira de Sá e Thomaz Bishop. Já no capítulo anterir
transcrevemos parte deste documento onde é referido que o engenheiro inglês
trabalharia no fabrico do papel sobre as instruções e fórmulas de Francisco
Joaquim Moreira de Sá. Seria então o fidalgo da Casa de Sá que teria em mente o
fabrico de papel com pasta de madeira e é possível que tivesse mesmo realizado
algumas experiências com êxito que o catapultassem para a iniciativa da construção
da fábrica. Moreira de Sá, também fruto da amizade com António de Araújo Azevedo,
seria um homem informado dos avanços do mundo e que se deixaria motivar por
eles. Em Thomaz Bishop Moreira de Sá terá encontrado alguém conhecedor da
ciência capaz de consolidar as suas experiências. Pelo outro lado, Thomas
Bishop teria o dominio do saber mas é provavel que teria dificuldade em o
concretizar e terá visto em Francisco Joaquim Moreira de Sá quem teria a
motivação e recusrsos necessários para aplicar tudo o que sabia.
Estudando a
vida de Francisco Joaquim Moreira de Sá após a destruição da fábrica pelas
tropas napoleonicas verifica-se que este continuou a perseguir o objectivo de
produzir papel com matéria vegetal. Moreira de Sá chegou a ter planos para a
construção de uma nova fábrica porém nunca terá conseguido reunir recursos
económicos suficientes para a concretizar.
(continua)
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