5 – A Fábrica de Papel das Caldas
Acha-se no relatório no relatório da Exposição Industrial de Guimarães de
1884, por Alberto Sampaio, que:
«A fábrica dos Snrs. Ribeiro e C.ª
está situada no lugar de Ante-Vilar, freguesia de Moreira de Cónegos, na margem
direita do Rio Vizela. Foi fundada nos anos 1813-1814. Produz papel de almaço e
de escrever, branco liso, anilado pautado e de embrulho branco e pardo.
Aproveita como força motora a água do rio, que move 3 rodas e estas 3
cilindros, que lavam e trituram o trapo até o reduzir a pasta. O resto do
serviço é todo manual.
O edifício foi construído e adaptado para o fabrico pelo sistema antigo. Em
1856 ampliou-se com um acréscimo e fizeram-se alguns aperfeiçoamentos. Além do
rés-do-chão tem dous andares e junto duas casas onde estão duas pequenas
oficinas de ferreiro e carpinteiro».
A propósito desta passagem em 1953 na Revista de Guimarães, Alberto Vieira
Braga em «Curiosidades de Guimarães» questiona quantas fábricas terão existido
no rio Vizela. Segundo o autor:
«A primeira fábrica, sabemos nós que foi montada por António Álvares
Ribeiro, assistente da rua de S. Miguel da cidade do Porto, para o que obteve
Alvará régio em 24 de Novembro de 1789, confirmado por Provisão de 7 de Janeiro
de 1799.»
Alberto Vieira Braga diz ainda que a 10 de Julho de 1798 foi lavrada uma
escritura pelo tabelião de Guimarães, João Mendes Ribeiro, em que António
Álvares Ribeiro admite como sócio da fábrica Francisco José Ribeiro e Castro
morador no lugar do Aidro, freguesia de S. Miguel das Caldas com a quarta parte
da sociedade. A escritura explica que o negócio é concretizado pelo muito
trabalho que o novo sócio tem tido com a erecção da fábrica cuja construção se
tem principiado nas margens do rio Vizela.
De acordo com os relatórios das exposições industriais, em 1897 o expositor
é Álvares Ribeiro com uma larga resenha histórica dizendo que foi construída
por Alvará régio de 24 de Novembro de 1789. Em Braga no ano de 1863 e no Porto
em 1865 a empresa de papel expositora é a Ribeiro e C.ª. Em 1923 aparece o
registo da fábrica de Papel de Vizela localizada em Moreira de Cónegos.
Alberto Vieira Braga no seu artigo «Curiosidades de Guimarães» publicado em
1953 conclui assim que existiram três fábricas em Vizela, a primeira em fundada
em 1789 de Álvares Ribeiro e que laborava com trapos, a segunda de 1804 e que
pertenceu a Francisco Joaquim Moreira de Sá que laborava com massa de madeira e
já estudada em capítulos anteriores, e uma terceira, fundada em 1813-1814 que
laborava com trapos e palha e se manteve até 1930 embora em decadência e tendo
passado por várias mãos.
A autora vizelense Maria José Pacheco no texto «Álvares Ribeiro e o Fabrico
de Papel», editado no livro da mesma autora «Das Margens do Vizela», escreveu
que Álvares Ribeiro era filho de António Álvares Ribeiro de Guimarães, este
natural de Caldas de Vizela e que se estabeleceu no Porto como impressor e
livreiro. António Álvares Ribeiro de Guimarães nasceu em 1749, casou em 1758 e
deu início a uma importante família de livreiros da cidade do Porto que em
muito contribuiram para o presígio da actividade. Em 1774 data do falecimento
de António Álvares Ribeiro Guimarães, o filho Ántónio Álvares Ribeiro que
nasceu em 1760 estava praticamente em condições de assumir a oficina do pai que
se situaria na rua de S. Miguel. Terá sido já Ántónio Álvares Ribeiro, que
dotado de espírito empreededor fez com que a oficina ganha-se renome, e abriu uma
loja dedicada exclusivamente à venda de livros na rua das Flores.
Com apenas 24 anos e dez após a morte de seu pai, António Álvares Ribeiro,
fundou aquela que terá sido a primeira fábrica de papel do rio Vizela. Em «O
papel como elemento de identificação» da Biblioteca Nacional e publicado em
1926 é dito que Ántónio Álvares Ribeiro produz papel com uma marca de água
própria e que em 1814 possui um outro engenho perto da propriedade de Manuel de
Sousa Lobo. No inquérito paroquial de 1842 à paróquia de S. Paio de Moreira de
Cónegos, o pároco Francisco Teixeira da Cunha identifica na freguesia duas
fábricas de papel.
No «Livro
dos proprietários das Tipografias e Litografias 1837-1876» no Arquivo do
Gabinete da Cidade é dito que após a morte de António Álvares Ribeiro em 1812,
a oficina de tipografia passou a designar-se por Viúva Álvares Ribeiro e
Filhos. A mesma informação é dada por Maria José Pacheco na publicação já acima
referenciada. A ser assim, em 1813-1814 a firma Ribeiro e C.ª seria já de um
seu herdeiro. É pois assim provavel que esta denominação fosse criada por
transformação da sociedade após a morte de Ántonio Álvares Ribeiro sendo porém
a mesma fábrica. Contudo não é descabido que a família Álvares Ribeiro tivesse
mais do que um engenho de papel, não sendo certo porém que fossem ambas no rio
Vizela pois no documento «O papel como elemento de identificação» não se
consegue perceber a localização. Para a definir teriamos de descobrir o local
da propriedade de Manuel de Sousa Lobo, que presumimos tratar-se de um
importante mercador, à época proprietário do navio mercante Harmonia que foi
aprisionado pelo Almirante Cockrane quando transportava tropas para o Brasil.
Uma outra
fábrica que ficava próximo de Vizela foi fundada por provisão de 9 de Agosto de
1800, propriedade de Francisco José Ribeiro e C.ª, de S. Miguel das Caldas, a
qual produzia papel de almaço de escrever, branco, liso, etc., conhecido como
papel das Caldas de Vizela, assim se lê no pouco que conseguimos obter de
«Anais das Bibliotecas e Arquivos de Portugal» de 1924 cujos excertos estão
disponiveis em Google Books. Esta designação comercial está próxima da
registada no relatório da Exposição Industrial de Guimarães de 1884 por Alberto
Sampaio e da qual já demos conta. Também pela escritura de 10 de Julho de 1798 sabemos que António Álvares Ribeiro
admitiu como sócio Francisco José Ribeiro e Castro de S. Miguel das Caldas. São
dúvidas que se levantam pois como o mestre da fábrica de António Álvares
Ribeiro que ganha a quarta parte da sociedade e dois anos depois aparece como
fundador de outra fábrica com uma designação comercial que em tudo faz lembrar
a original? Terá o mestre e sócio da primitiva fábrica seguido um percurso
independente poucos anos depois? É muito provavel que sim e será esta a
explicação para as diversas designações dos relatórios das exposições que
Alberto Vieira Braga estudou em «Curiosidades de Guimarães». A ser assim também
poderá explicar-se o registo de duas fábricas de papel em Moreira de Cónegos no
inquérito paroquial de 1842.
Assim, ainda
que com algumas fragilidades concluímos que:
a) António Álvares Ribeiro fundou a
primeira fábrica de papel do rio Vizela em Moreira de Cónegos em 1789, conforme
Alvará régio de 24 de Novembro desse ano.
b) Em 1798, conforme escritura de 10 de
Julho, António Álvares Ribeiro admite o seu mestre Francisco José Ribeiro e
Castro como seu sócio na fábrica a quarta parte da sociedade.
c) Em 9 de Agosto de 1800 foi fundada
uma nova fábrica designada Franciso José Ribeiro e C.ª e que poderá ter sido do
mestre e sócio da primeira fábrica.
d) A 28 de Abril de 1804 foi fundada a
fábrica de papel da Cascalheira por Francisco Joaquim Moreira de Sá e já
estudada em capítulo anterior.
e) Em 1812 morre António Álvares
Ribeiro e no ano seguinte, em 1813, a firma terá mudado de designação para
Ribeiro e C.ª.
Num texto
publicado no fórum do site de genealogia Geniall por Manuel Maria Magalhães, que
se diz descendente da família de Álvares Ribeiro, é dito que os Ribeiro se
dedicaram à produção de papel em Vizela, negócio que mantiveram durante largas
de zenas de anos, tendo entretanto a fábrica sido desactivada e a sua queda de
água vendida em 1940 pela sua tia-avô Madre Maria Máxima Cabral Álvares
Ribeiro, da Congregação de Santa Doroteia, para grande desgosto da família
Santos da Cunha, seus clientes e que muito apreciavam o papel próprio para
pirótecnia. A propósito a família Santos da Cunha é originária de Braga e a par
com outros ramos de negócio ainda hoje se dedica aos explosivos e quimícos para
pirotécnia, tendo a empresa sido fundada em 1834. Esta informação acaba por
estar muito próxima da de Alberto Vieira Braga que diz que a fábrica foi desactivada
em 1930 já em decadência. Ora assim vemos que a última herdeira da fábrica terá
sido uma freira religiosa e que a mesma se manteve durante quase século e meio
como pertença da família Álvares Ribeiro.
Resta
esclarecer um pormenor: a quem pertencia a marca Papel das Caldas? Maria José
Pacheco diz que António Álvares Ribeiro produzia um papel conhecido como Papel
das Caldas e que o vendia para o Brasil. Já conforme transcrito aqui, em «Anais
das Bibliotecas e Arquivos de Portugal», seria a firma Francisco José Ribeiro e
C.ª que produzia o chamado papel das Caldas de Vizela. Fica esta questão por
esclarecer, pois para ela não encontramos nada escrito que nos aponte caminho,
ficamos porém inclinados para que a afirmação de Maria José Pacheco seja a mais
correcta.
(continua)
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