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As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (VIII)

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6 – As Ruínas da Fábrica da Cascalheira
6.1 - Guerra Peninsular

Mas haverá alguma consistência na versão que indica que a fábrica foi destruída pelo exército francês? Para responder a essa questão, na ausência de documentação que nos dê notícias da actividade francesa em Vizela no tempo da Guerra Peninsular vamos saber o que se passou na vizinha Guimarães à qual Vizela dependia administrativamente, curiosamente vamos estudar o tema recorrendo a um discurso do Abade de Tagilde, freguesia que hoje pertence ao concelho de Vizela, João Oliveira Guimarães à época presidente da Câmara de Guimarães. O documento pertence ao arquivo da Sociedade Martins Sarmento da qual todo o nosso país se deve orgulhar pelo valor que a mesma tem no estudo da História local do norte em especial Guimarães e Vizela.

João Oliveira Guimarães, nas comemorações do centenário da Guerra Peninsular, indica-nos que os franceses chegaram a Guimarães em 18 de Dezembro de 1807 e que só 48 dias depois é que a Câmara proclamou ser administrada pelos franceses, pelo que explica a resistência local aos invasores. A acção francesa nos primeiros tempos apenas fica marcada pelos elevados encargos para a Câmara que é obrigada a custear as despesas do exército invasor. Porém a população da villa e arredores vai ganhando fulgor no sentido de armar milícias para combater o exército francês. Assim em 18 de Junho de 1808 a população junta-se em assembleia popular com a Câmara e autoridades, aclamam o Príncipe Regente e proclamam a independência da pátria. Seguem depois para a Colegiada onde pedem bênção à Virgem da Oliveira. Guimarães torna-se o centro do movimento no Minho e é por isso de esperar que venha a ser alvo da fúria do exército francês.

As milícias vão-se preparando para os confrontos que se adivinhavam. Rodrigo Vieira Borges de Campos, abade resignatário de S. Paio de Vizela, foi um dos principais beneméritos da causa tendo ido para o Porto durante doze dias às suas custas para conseguir equipamento militar. É  justo fazer aqui referência ao contributo impulsionador do clero local tendo muitos párocos estado nas frentes de batalha

Guimarães não era caso isolada e um pouco por todo o país se levantaram milícias populares que bravamente enfrentaram o exército francês. Junot dera entretanto ordens a Loison que estava aquartelado em Almeida para se dirigir ao Norte e tomar a cidade do Porto. Loison atravessa o rio Douro e chega a Mesão Frio em 21 de Junho de 1808 com parte dos seus soldados feridos e outros mortos pelas emboscadas que encontraram pelo caminho. E Na serra do Marão aguardavam o general Loison as gentes de Guimarães e de outras terras comandados pelos vimaranenses Gaspar Teixeira e monsenhor Pedro Machado de Miranda. Loison teme e não arrisca, recua volta a passar o rio Douro e Lamego até que em Póvoa de Juvantes o seu exército fica debaixo de intenso fogo e decide voltar para Almeida.

Com estas jornadas deu-se o fim da primeira invasão francesa em terras do norte. Fica assim esclarecido que é pouco provável que a fábrica de papel possa ter sido destruída pelos franceses não terá sido na primeira invasão. Porém o norte ainda não ficou definitivamente livre dos franceses. Alguns meses depois dá-se a segunda invasão, esta iniciada na zona norte.

A 16 de Janeiro de 1809 o próprio Imperador Napoleão toma a Corunha. Aí ordena a Soult que deveria tomar a cidade do Porto a 1 de Fevereiro e 10 dias depois tomar a cidade de Lisboa. Soult parte da Corunha e com facilidade toma Ferrol e Vigo. Atingido a margem norte do rio Minho Soult encontrou sérias dificuldades em conseguir a travessia e só duas semanas depois tenta a travessia, a 16 de Fevereiro. Soult não consegue entrar em Portugal e decide contornar a fronteira norte, vai a Ourense e entra por Chaves. Em Ourense encontraram a ponte intacta e aí atravessaram o rio Minho.

Soult tomou a praça de Chaves a 12 de Março de 1809 e aí fez a sua base de operações em Portugal. Para chegar ao Porto Soult tomou o caminho pela serra da Cabreira, depois Salamonde e Braga e daí tomaria a estrada para o Porto. Pouco antes de Braga, em Carvalho d`Este, esperava os franceses um exército de 25.000 portugueses. A batalha foi facilmente resolvida a favor dos franceses, foi a 20 de Março. Aqui uma coluna de 4.000 homens sob o comando do general Lahoussaye separou-se do exército principal e rumou a Guimarães por Arosa. João Oliveira de Guimarães não faz relatos de destruição, mas apenas de pilhagens aos tesouros das igrejas.

Loison marchava de novo pelo Alto Douro a caminho de Braga para juntar os seus homens aos de Soult. O general Lahoussaye saiu de Guimarães ao encontro de Loison e foi em Amarante que ambos travaram uma prolongada e violenta batalha contra o exército português que contaria com cerca de 10.000 homens comandados pelo brigadeiro Silveira que havia sido forçado a sair de Chaves. Nesta batalha faleceu um filho de Francisco Joaquim Moreira de Sá, o dono da fábrica da Cascalheira.

Entretanto no Porto as coisas não estavam a correr de feição para Soult que havia sido surpreendido pela chegada das tropas britânicas. Assim Soult retira do Porto e planeia juntar-se a Loison . Soult sai do Porto em direcção a Amarante  e em Baltar decide acampar e passar a Noite. Estaria já meio de caminho entre o Porto e Amarante quando toma conhecimento de que Amarante estava já em mãos portuguesas e que Loison já se encontrava em Guimarães. Vê-se assim quase cercado, a Oeste estão os ingleses, a Este os portugueses, resta-lhe tomar o Norte como rumo em direcção a Guimarães. Soult desconhecia o caminho que de resto era difícil e pelo meio da serra. Soult dá instruções para deixar para trás tudo quanto não pudesse ser carregado às costas, inclusive os bens pilhados durante a campanha. Uma vez em Guimarães já reunido com Loison toma conhecimento de que Braga já estava sob a protecção do exército inglês e por isso já não podia ser rota de fuga. Entretanto o exército inglês também alcança Chaves e Soult é forçado a sair de Guimarães pelo lado Norte e depois virar pela serra do Gerês alcançando Espanha na zona de Montalegre.

Termina aqui a segunda invasão francesa e não há registos de que na terceira este região tenha sido interceptada pelas tropas de Napoleão. Ora, desta alongada dissertação sobre as movimentações francesas, ficamos convencidos de que os franceses terão atravessado Vizela aquando da retirada do Porto. Vizela continua hoje a ser porta de entrada do Vale do Ave para quem vem de terras    do Sousa, não obstante parece-nos pouco provável que a nossa fábrica tenha sido destruída nesta passagem. Consta dos relatos que Soult demorou apenas 1 dia de Baltar a Guimarães e que sendo a travessia difícil e debaixo de chuva carregaram consigo apenas o indispensável para a fuga, assim não teria havido tempo nem recursos para destruir por completo a fábrica. Por outro lado não é de todo impossível que Louison tenha passado por Vizela no trajecto de Amarante para Guimarães, embora nos pareça mais fácil não o fazer por aqui, bom mas não temos conhecimento suficiente dos caminhos antigos para especular. Vamos admitir que Louison passou em Vizela, terá tido oportunidade de destruir a fábrica de papel? Depois do fim da batalha de Amarante até reunião com as tropas de Soult em Guimarães e a fuga de ambos pelo Gerês decorreram cerca de 2 semanas. João Oliveira Guimarães no seu discurso diz que nesta última passagem por Guimarães os vimaranenses sofreram opressões e extorsões que deixa em silêncio. Não sobram dúvidas de que os franceses se portaram barbaramente neste período de fuga, duvidamos no entanto de que tenham tido tempo suficiente para destruir a fábrica por completo.


É bem claro que as invasões francesas ditaram o fim da fábrica de Francisco Joaquim Moreira de Sá com a fuga do seu promotor para o Brasil e em consequência o seu abandono. É também possível que as tropas francesas tenham mesmo estado nas instalações da fábrica e as tenham destruído, mas achamos pouco provável que a tenham deixado no estado de ruína total. Era comum na época os populares deitarem mão às pedras de edifícios abandonados para as reutilizar nas suas construções. É possível que aqui também assim tenha acontecido. Em todo o caso os franceses tinham razões de sobra para a querem destruída, desde logo pelo avanço tecnológico lá praticado, depois pelas suas ligações a António de Araújo de Azevedo e por ser dirigida por um inglês.

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