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As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (XI)

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7 - Francisco Joaquim Moreira de Sá, e a História do Papel no Brasil.

Encontra-se em literatura brasileira que Francisco Joaquim Moreira de Sá era um velho ilustre fidalgo português que emigrou para o Brasil na companhia d’El Rei D. João VI e que uma vez lá chegado não se constituiu pensionista do Rei como quase todos o fizeram, tratou antes de se retirar para a sua fazenda em Santo António de Rio Abaixo em Minas Gerais. Era parente do Ministro António de Araújo de Azevedo e muito influente no Paço e a sua casa tornou-se no ponto de reunião da elite mineira.

Esta descrição que no Brasil se faz de Moreira de Sá é ilustrativa da sua personalidade e capacidade de iniciativa. Podemos acrescentar; persistência, pois uma vez no Brasil, longe da fábrica que criara, continua a perseguir o sonho de fabricar papel com pasta de madeira. Rui Moreira de Sá e Guerra referencia oito cartas escritas por Francisco Joaquim Moreira de Sá a António de Araújo de Azevedo entre Agosto de 1813 e Junho de 1815. Na terceira dessas cartas, em Outubro de 2013, Moreira de Sá fala das suas intenções para montar uma fábrica de papel em ponto pequeno dizendo saber-se informado de que António de Araújo de Azevedo iria solicitar ao Conde de Aguiar que expeça um Aviso ao Sr. Palma para proteger a dita fábrica. Alguns meses depois, em Março de 1814, em nova carta desabafa que não obstante os bons resultados que tem conseguido nas experiências para a fábrica de papel, são necessários muitos desembolsos, com os quais poderia facilmente caso os seus devedores lhe pagassem e acrescenta que uns estão falidos e outros é necessário dar-lhes espera para que possam ir pagando. Acrescenta que lhe resta vender à Fazenda Real as águas e lavras que tem no Morro de Gaspar Soares (hoje Morro do Pilar).

Já antes nestes apontamentos dissemos que Francisco Joaquim Moreira de Sá havia sido ajudado por António de Araújo de Azevedo para a instalação da fábrica da Cascalheira. Julgamos que se dúvidas houvesse sobre essa parceria é tema que fica esclarecido com estas oito cartas. Nelas fala-se de negócios e entende-se que alguns são comuns a ambos. Na segunda carta em Setembro de 1813, Francisco Joaquim Moreira de Sá fala num negócio de mineração no Morro da Cachaça sobre o qual recebeu uns papeis que não perdeu tempo a ler e os remeteu rapidamente ao destinatário da carta, António de Araújo de Azevedo. Ainda antes das invasões francesas o futuro Conde da Barca propôs-se instalar uma fiação e tecelagem em Arcos de Valdevez em propriedades suas e nessa altura, a 22 de Janeiro de 1806, Francisco Joaquim Moreira de Sá escreve-lhe prestando o seu parecer e diligências para conseguir sócios.

Em Outubro de 1814 volta a escrever dizendo que decidiu não vender as águas e lavras do Morro de Gaspar Soares, pensando antes sorteá-las numa lotaria sendo porém necessário licença para esse fim. Com essa transacção teria capital suficiente para se associar a outra pessoa e estabelecer a fábrica na fazenda de Santo António, para logo a seguir a vender e voltar para Portugal remediar as desordens da sua ausência e gozar da felicidade da Europa e dar boa educação ao seu poeta, referia-se ao filho Miguel António Moreira de Sá. Numa sexta carta, esta sem data é dito já ter recebido ordem para apresentar o plano de jogo para a lotaria e continua dizendo que Sua Alteza o deveria isentar de sisa em atenção à fábrica que pretende construir. Na mesma carta diz: «Temos aqui muitas embiras, e outras plantas que sem dependência de branqueação dão excelente Papel; as que precizão branquear-se ficão para papel pintado, embrulho, polvilho, etec. Não trato de celindros nem de maquenismos complicados; quero pagar dívidas, e o dinheiro, e os Artífeces não chegão a tanto: com piloens farei muito Papel e obtida que seja a licença para a Lotaria em poucos meses o teremos: tais são as proporçoens em que me acho: pelo tempo adiante, ou eu ou os que ficarem com a Fazenda e com a Fábrica, a poderão levar a maior tempo».
No livro das decisões da legislação brasileira do Arquivo da Câmara dos Deputados encontra-se a 26 de Maio de 1815 a licença para uma lotaria a Francisco Joaquim Moreira de Sá para a instalação de uma fábrica de papel ma fazenda de Santo António de Rio Abaixo, capitania de Minas Gerais. É depois em carta de Junho de 1815 que Moreira de Sá dá conta de que recebeu a licença para a lotaria em carta do ministro António de Araújo a quem escreve a agradecer.

Moreira de Sá escreve um última carta da qual se desconhece a data a António de Araújo de Azevedo onde diz que já tem uma fábrica em ponto pequeno que faz papel e que conforme já antes havia dito tenciona vendê-la. Acrescenta que a fazenda onde está instalada a fábrica é imensa mas não logrou. Já na terceira carta em 1813, Francisco Joaquim Moreira de Sá dava conta de que a fazenda tinha sofrido maus tratos e não conseguia tirar dela os rendimentos necessários. Acrescenta que para a venda da fábrica e da fazenda está interessado em receber dinheiro à vista e por isso também pensa em nova lotaria. Fala ainda do negócio de mineração no qual deposita muitas esperanças. Francisco Joaquim Moreira de Sá aparenta estar necessitado da realização dinheiro e também terá usado a fábrica de papel como forma de valorizar a fazenda que estava, como ele disse, mal tratada.

Esta última carta não está datada, mas é na certeza posterior a 17 de Dezembro de 1815, data em que António de Araújo de Azevedo foi agraciado com o título de Conde da Barca e, já assim é tratado na respectiva missiva. Diz Rui Moreira de Sá e Guerra que na viagem de  regresso a Portugal Francisco Joaquim Moreira de Sá terá sido roubado por piratas que lhe levaram todo o aforro, pelo menos assim consta na tradição da família. Não conseguimos no entanto apurar a data do regresso pois ajudar-nos ia a balizar quando erigiu a fábrica no Brasil. Não sendo objectivo destes apontamentos aprofundar a História das fábricas de papel na antiga colónia portuguesa, não passamos porém sem uma breve referência. Em diversa literatura brasileira é dito que a primeira fábrica de papel no Brasil foi construída por Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva, dois portugueses, em 1810 em Andaraí Pequeno perto do Rio de Janeiro e produziria papel com fibra de bananeira. Seria um engenho pequeno pois lê-se em «A Celulose de Eucalipto – Uma oportunidade brasileira» de Luiz de Souza Queiroz e Luiz Ernesto George Barrichelo patrocinado pelo Grupo Votarantim Celulose de Papel que a fabriqueta dos portugueses não durou muito e que D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal em 1826 escreveu uma carta à marquesa de Santos, Maria Domitila, afirmando: “Bem desejei que esta lhe fosse escrita em papel brasileiro da fábrica, mas por ora não o há, o que em pouco espero não o seja”.


Fica esclarecido que a indústria de papel no Brasil dá os primeiros passos com a instalação da corte portuguesa no Brasil, Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva, também terão seguido para o Brasil com D. João VI, do mesmo modo que Francisco Joaquim Moreira de Sá. Mas quem eram esses dois que do outro lado do Atlântico se anteciparam a Moreira de Sá? Não conseguimos saber, em todo o caso estranhamos que não se encontrem referências a Francisco Joaquim Moreira de Sá em relação ao fabrico de papel no Brasil, mais estranhamos porque ambos os outros são anónimos nesta actividade em Portugal, ou pelo menos no que ao uso de material vegetal diz respeito e dois anos após chegarem ao Brasil já estão a produzir papel com fibras de bananeira! Em todo o caso todas as referências que encontramos pareciam cópias textuais umas das outras, o que nos leva a crer que a História do papel no Brasil está por contar. 

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