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Para uma Poética da Água.

No passado dia 7 de Outubro, foi apresentado na Casa da Cultura Joaquim da Costa Chicória em Vizela, o livro Para uma Poética da Água.

Esta obra, editada pela Fundação Jorge Antunes, inclui quatro textos de, José Eugénio Carvalho da Silva, Maria Manuela Ferreira da Cunha, Jorge Miranda e Constantino Pereira Martins, também coordenador deste trabalho.
Aqui está incluso o texto de Jorge Miranda As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens.

O PDF completo do livro está disponível em https://www.researchgate.net/



No passado dia 7 de Outubro, foi apresentado na Casa da Cultura Joaquim da Costa Chicória em Vizela, o livro Para uma Poética da Água.
Esta obra, editada pela Fundação Jorge Antunes, inclui quatro textos de, José Eugénio Carvalho da Silva, Maria Manuela Ferreira da Cunha, Jorge Miranda e Constantino Pereira Martins, também coordenador deste trabalho.
Aqui está incluso o texto de Jorge Miranda As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens.
Segue-se o discurso que acompanhou a apresentação relativa ao texto cujo objeto são as fábricas de papel:
«As primeiras palavras são de agradecimento ao coordenador deste projeto, ao Constantino Martins, pelo convite para participar neste livro. Também palavras de agradecimento aos responsáveis da Fundação Jorge Antunes por aceitarem o desafio de materializar esta obra.
Era o município de Vizela um recém-nascido e dava-se a coincidência do meu despertar para os temas locais. Vivia-se o ânimo da emancipação concelhia e, numa reflexão ao futuro escrevi “Vizela, Cidade D´Água”, um texto que esteve publicado num site que então tinha criado.
Estávamos em 1999, e para alguém como eu, que sempre teve o rio Vizela como vizinho, que tive o privilégio de nele aprender a nadar e nele mergulhar até ao limite dos dias em que tal foi possível, só podia desejar que o futuro de Vizela fosse voltado para o rio.
O Vizela, nascido no alto das serras de Fafe, desce contornando montes e serpenteando campos, para se cruzar nos olhos de água a quem batizou de Caldas de Vizela.
Rio que foi alimento para os campos, que foi energia para moinhos e pisões, que foi e é energia para iluminar a escuridão, rio que veste de cores os tecidos que neste vale se tecem. Rio que foi translúcido e margens que encantaram a escrita de poetas e a paleta de pintores.
Mas os tempos mudam e o progresso nem sempre é gaio. Para o rio Vizela não o foi. As águas turvaram na mesma dose em que os campos foram abandonados e os moinhos pararam. Em contraste, em maior proporção cresceram as indústrias. O rio Vizela foi quem colocou comida na mesa, pagou as prestações da casa, do carro e foi quem mandou os filhos para a escola e lhes pagou a faculdade. Poucos de nós vizelenses, estamos libertos desta pena de quase carrascos do rio. Somos uma sociedade de culpados e talvez por isso, nos primeiros anos deste século uma reportagem sobre a poluição no Vale do Ave e do Vizela escrevia: “Em Vizela é diferente, as pessoas não querem falar”.
Estou certo de que o tempo não é o mesmo, o rio está doente, mas não o moribundo que já foi. Voltou a respirar e os vizelenses voltaram a aproximar-se e sobretudo a falar do rio.
Chamo à memória que o coordenador deste livro deu um enorme contributo para que o rio fosse centro de conversas e o fosse na Assembleia da República. O Constantino não está cá, mas atrevo-me a dizer que este livro é o fechar de um ciclo.
Chegados aqui, é preciso continuar a alimentar a esperança de um rio Vizela limpo, e de que as suas margens sejam salvaguardadas de pressões. O rio e as suas margens são o maior ativo de Vizela, é por isso necessário tocar-lhe pouco e tocando que seja com pinças.
Mas faço ainda notar a responsabilidade individual dos pequenos atos e infelizmente ainda se detetam indícios de despejos de restos de limpezas de terrenos e jardins nas margens do Vizela.
O rio Vizela, foi também o alimento da história que trago para este livro, as “Indústrias de Papel no rio Vizela e suas Personagens”. Falamos de um movimento de industrialização que começou nos finais século XVIII e atingiu o apogeu no século XIX. Falamos da fábrica de Álvares Ribeiro, vizelense e livreiro radicado no Porto que veio instalar a sua fábrica de papel nas margens do Vizela, abaixo de Vilar, em terras de Moreira de Cónegos e, de uma outra, fundada por um antigo mestre desta primeira também ele Ribeiro.
Mas falamos principalmente, da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá fidalgo confesso da Ordem de Cristo e morador na Quinta de Sá em Santa Eulália de Barrosas. A Fábrica de Papel e Tinturaria de Sá instalada na quinta da Cascalheira, a primeira no mundo a fazer papel com pasta de madeira, cerca de 40 anos antes do invento oficial desta técnica de produção.
Este empreendedor, Francisco Joaquim Moreira de Sá, herdou a nobreza da mãe, a fortuna do pai e talvez também o engenho porque, Francisco Moreira Carneiro, o pai, foi carpinteiro de engenhos em Minais Gerais e isso pode ter influenciado o entusiasmo de Moreira de Sá pela maquinaria hidráulica. Viveu com paixão e conhecimento a revolução industrial que então decorria na Europa, em especial em França e na Inglaterra. Partilhou esse deslumbre com António de Araújo Azevedo, considerado o mais culto e sábio da corte e também parente da sua primeira mulher. Juntos trouxeram para Portugal as primeiras sementes da industrialização.
Para termos uma ideia, Francisco Joaquim Moreira de Sá e António de Araújo Azevedo tiveram um projeto comum na região de Ponte da Barca. Moreira de Sá, foi uma espécie de consultor para aquele que viria a ser Conde da Barca, tendo projetado o transvaze de água do rio Vez para o rio Lima num percurso de cerca de 4km e que alimentaria um complexo têxtil. Juntaram ainda a intenção de tornar o rio Lima e o Vez navegáveis até Ponte da Barca com o propósito de incrementar as trocas comerciais da região.
Já na fábrica de papel da Cascalheira, estes homens não foram sócios, mas António de Araújo Azevedo, em funções políticas, fez prolongadas viagens, por França, pela Inglaterra e pelos Países Baixos e estima-se que terá sido ele quem trouxe para Vizela Thomas Bishop, engenheiro inglês que veio viver para a Quinta de Sá e que orientou a Fábrica da Cascalheira sob as instruções de Moreira de Sá.
A fábrica da Cascalheira, ainda que não finalizada, terá laborado, havendo registo de o ter feito até 1809, ainda que com dificuldades por problemas de falta de abastecimento de água.
Com a fábrica de papel, Vizela é colocada no mapa da industrialização em linha com o movimento europeu.
O momento português neste período era muito complexo. As invasões francesas e o governo do país que se mudou para o Brasil em novembro de 1807, faziam de Portugal uma nação sem perspetivas e a fábrica da Cascalheira não sobreviveu ao mau momento. Francisco Joaquim Moreira de Sá ainda estaria na sua quinta, em Santa Eulália, pelo menos até 26 de Fevereiro de 1809, altura em que ainda acertava negócios de terrenos e foros enfiteutas que tiveram o propósito de trazer água do ribeiro do Sá para Bouça Vedra.
Partiu depois para o Brasil onde se instalou em Santo António do rio Abaixo, em propriedades suas e que foram de seu pai. A correspondência da época esclarece que ainda tentou a produção de papel no Brasil, mas teve que lidar com muitas dificuldades económicas e centrou-se sobretudo em liquidar bens para equilibrar as finanças.
Foi este património, que é certamente da família Moreira de Sá, mas que transvaza para o interesse comunitário e também da história industrial do país que quis trazer para este livro num texto, que em rigor já foi escrito há dez anos e que não teve o objetivo de trazer novo conhecimento, mas antes reunir a dispersão de fontes num único documento.
As fábricas de papel do rio Vizela ganham assim uma espécie de existência física, e é um contributo para que permaneçam na memória e não se diluam no tempo.
Esta publicação, mais do que respostas, deixa inquietude para esclarecer com pormenor este que foi um momento grande da história da nossa comunidade.
Para finalizar, dois apelos:
O primeiro, não querendo meter a foice em ceara alheia. Que algum consórcio de interesses se forme no sentido de olhar para a Casa de Sá, para o património construído, mas especialmente para o património documental, de maneira que seja salvaguardado e não irremediavelmente perdido como parece ser o caminho que toma, ou que porventura já tomou.
O segundo, aproveitando estar nesta casa, que à semelhança de outros municípios, se faça a digitalização da sua história, da história que está nas páginas dos jornais e faça-se nascer uma hemeroteca digital com base no arquivo do Notícias de Vizela.
Segue-se o discurso que acompanhou a apresentação relativa ao texto cujo objeto são as fábricas de papel:
«As primeiras palavras são de agradecimento ao coordenador deste projeto, ao Constantino Martins, pelo convite para participar neste livro. Também palavras de agradecimento aos responsáveis da Fundação Jorge Antunes por aceitarem o desafio de materializar esta obra.
Era o município de Vizela um recém-nascido e dava-se a coincidência do meu despertar para os temas locais. Vivia-se o ânimo da emancipação concelhia e, numa reflexão ao futuro escrevi “Vizela, Cidade D´Água”, um texto que esteve publicado num site que então tinha criado.
Estávamos em 1999, e para alguém como eu, que sempre teve o rio Vizela como vizinho, que tive o privilégio de nele aprender a nadar e nele mergulhar até ao limite dos dias em que tal foi possível, só podia desejar que o futuro de Vizela fosse voltado para o rio.
O Vizela, nascido no alto das serras de Fafe, desce contornando montes e serpenteando campos, para se cruzar nos olhos de água a quem batizou de Caldas de Vizela.
Rio que foi alimento para os campos, que foi energia para moinhos e pisões, que foi e é energia para iluminar a escuridão, rio que veste de cores os tecidos que neste vale se tecem. Rio que foi translúcido e margens que encantaram a escrita de poetas e a paleta de pintores.
Mas os tempos mudam e o progresso nem sempre é gaio. Para o rio Vizela não o foi. As águas turvaram na mesma dose em que os campos foram abandonados e os moinhos pararam. Em contraste, em maior proporção cresceram as indústrias. O rio Vizela foi quem colocou comida na mesa, pagou as prestações da casa, do carro e foi quem mandou os filhos para a escola e lhes pagou a faculdade. Poucos de nós vizelenses, estamos libertos desta pena de quase carrascos do rio. Somos uma sociedade de culpados e talvez por isso, nos primeiros anos deste século uma reportagem sobre a poluição no Vale do Ave e do Vizela escrevia: “Em Vizela é diferente, as pessoas não querem falar”.
Estou certo de que o tempo não é o mesmo, o rio está doente, mas não o moribundo que já foi. Voltou a respirar e os vizelenses voltaram a aproximar-se e sobretudo a falar do rio.
Chamo à memória que o coordenador deste livro deu um enorme contributo para que o rio fosse centro de conversas e o fosse na Assembleia da República. O Constantino não está cá, mas atrevo-me a dizer que este livro é o fechar de um ciclo.
Chegados aqui, é preciso continuar a alimentar a esperança de um rio Vizela limpo, e de que as suas margens sejam salvaguardadas de pressões. O rio e as suas margens são o maior ativo de Vizela, é por isso necessário tocar-lhe pouco e tocando que seja com pinças.
Mas faço ainda notar a responsabilidade individual dos pequenos atos e infelizmente ainda se detetam indícios de despejos de restos de limpezas de terrenos e jardins nas margens do Vizela.
O rio Vizela, foi também o alimento da história que trago para este livro, as “Indústrias de Papel no rio Vizela e suas Personagens”. Falamos de um movimento de industrialização que começou nos finais século XVIII e atingiu o apogeu no século XIX. Falamos da fábrica de Álvares Ribeiro, vizelense e livreiro radicado no Porto que veio instalar a sua fábrica de papel nas margens do Vizela, abaixo de Vilar, em terras de Moreira de Cónegos e, de uma outra, fundada por um antigo mestre desta primeira também ele Ribeiro.
Mas falamos principalmente, da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá fidalgo confesso da Ordem de Cristo e morador na Quinta de Sá em Santa Eulália de Barrosas. A Fábrica de Papel e Tinturaria de Sá instalada na quinta da Cascalheira, a primeira no mundo a fazer papel com pasta de madeira, cerca de 40 anos antes do invento oficial desta técnica de produção.
Este empreendedor, Francisco Joaquim Moreira de Sá, herdou a nobreza da mãe, a fortuna do pai e talvez também o engenho porque, Francisco Moreira Carneiro, o pai, foi carpinteiro de engenhos em Minais Gerais e isso pode ter influenciado o entusiasmo de Moreira de Sá pela maquinaria hidráulica. Viveu com paixão e conhecimento a revolução industrial que então decorria na Europa, em especial em França e na Inglaterra. Partilhou esse deslumbre com António de Araújo Azevedo, considerado o mais culto e sábio da corte e também parente da sua primeira mulher. Juntos trouxeram para Portugal as primeiras sementes da industrialização.
Para termos uma ideia, Francisco Joaquim Moreira de Sá e António de Araújo Azevedo tiveram um projeto comum na região de Ponte da Barca. Moreira de Sá, foi uma espécie de consultor para aquele que viria a ser Conde da Barca, tendo projetado o transvaze de água do rio Vez para o rio Lima num percurso de cerca de 4km e que alimentaria um complexo têxtil. Juntaram ainda a intenção de tornar o rio Lima e o Vez navegáveis até Ponte da Barca com o propósito de incrementar as trocas comerciais da região.
Já na fábrica de papel da Cascalheira, estes homens não foram sócios, mas António de Araújo Azevedo, em funções políticas, fez prolongadas viagens, por França, pela Inglaterra e pelos Países Baixos e estima-se que terá sido ele quem trouxe para Vizela Thomas Bishop, engenheiro inglês que veio viver para a Quinta de Sá e que orientou a Fábrica da Cascalheira sob as instruções de Moreira de Sá.
A fábrica da Cascalheira, ainda que não finalizada, terá laborado, havendo registo de o ter feito até 1809, ainda que com dificuldades por problemas de falta de abastecimento de água.
Com a fábrica de papel, Vizela é colocada no mapa da industrialização em linha com o movimento europeu.
O momento português neste período era muito complexo. As invasões francesas e o governo do país que se mudou para o Brasil em novembro de 1807, faziam de Portugal uma nação sem perspetivas e a fábrica da Cascalheira não sobreviveu ao mau momento. Francisco Joaquim Moreira de Sá ainda estaria na sua quinta, em Santa Eulália, pelo menos até 26 de Fevereiro de 1809, altura em que ainda acertava negócios de terrenos e foros enfiteutas que tiveram o propósito de trazer água do ribeiro do Sá para Bouça Vedra.
Partiu depois para o Brasil onde se instalou em Santo António do rio Abaixo, em propriedades suas e que foram de seu pai. A correspondência da época esclarece que ainda tentou a produção de papel no Brasil, mas teve que lidar com muitas dificuldades económicas e centrou-se sobretudo em liquidar bens para equilibrar as finanças.
Foi este património, que é certamente da família Moreira de Sá, mas que transvaza para o interesse comunitário e também da história industrial do país que quis trazer para este livro num texto, que em rigor já foi escrito há dez anos e que não teve o objetivo de trazer novo conhecimento, mas antes reunir a dispersão de fontes num único documento.
As fábricas de papel do rio Vizela ganham assim uma espécie de existência física, e é um contributo para que permaneçam na memória e não se diluam no tempo.
Esta publicação, mais do que respostas, deixa inquietude para esclarecer com pormenor este que foi um momento grande da história da nossa comunidade.
Para finalizar, dois apelos:
O primeiro, não querendo meter a foice em ceara alheia. Que algum consórcio de interesses se forme no sentido de olhar para a Casa de Sá, para o património construído, mas especialmente para o património documental, de maneira que seja salvaguardado e não irremediavelmente perdido como parece ser o caminho que toma, ou que porventura já tomou.
O segundo, aproveitando estar nesta casa, que à semelhança de outros municípios, se faça a digitalização da sua história, da história que está nas páginas dos jornais e faça-se nascer uma hemeroteca digital com base no arquivo do Notícias de Vizela.

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