Para uma criança, a designação do lugar Senhor do Perdidos exerce sobre o imaginário uma certa mística. Mais quando se ouve, por um tio com raízes por ali perto, que nesse local se encontravam frequentemente moedas antigas. Portanto, na cabeça de criança, o Senhor dos Perdidos assim se chamava porque algum antigo por ali perdeu o seu tesouro.
É precisamente o achamento do
tesouro do Senhor dos Perdidos, em 1971, que me leva a escrever este texto.
Figura 1 – Foto https://www.felgueirasdiario.pt/
O Senhor dos Perdidos é um lugar
no Vale do Vizela, na cumeeira de uma cordilheira que se forma a seguir a Pombeiro
e se estende de Nordeste para Sudoeste até Revinhade, onde é cortada pela
autoestrada A11, para depois se prolongar pelos Maragoutos de Norte para Sul
até Barrosas. Forma aí um canal de “passagem” desde as terras do Vizela, para as
terras do Sousa em direção a Lousada. O Senhor dos Perdidos está praticamente
no início dessa cordilheira, na zona fronteira da freguesia de São Martinho de
Penacova, do lado do Vale do Vizela, e da freguesia de Torrados, do lado de
Felgueiras. O lugar é assinalado por uma capela que datará do século XVIII.
No que diz respeito à capela,
parece-me não ter nada de assinalável. Trata-se de um pequeno templo em granito
de nave central com dois corpos laterais salientes. Na fachada destacam-se os
cunhais, típicos de construções religiosas da época, simétrica encimada por
dois pináculos em forma de cântaro. Ao centro, no topo, destaca-se uma cruz granítica.
No pano sobre o corpo lateral esquerdo um
arco sineiro vazio. O pequeno templo tem ainda um alpendre de proteção à porta
principal que parece ter sido adaptado posteriormente.
Figura 2 – Foto felgueirasmagazine.pt
Já esta capela estava construída
quando, em finais de 1800 Francisco Martins Sarmento percorreu o Vale do Vizela
para um levantamento de tudo quanto fosse relevante para a catalogação
histórica da região. O périplo iniciou em Vizela e seguiu pela margem esquerda
do rio até São Jorge de Vizela, daí atravessou para a margem direita e seguiu
de São Paio a Infias. Nesta empreitada, o investigador, em São Martinho de
Penacova diz-nos: É corrente dizer-se que ali houve uma povoação de mouros, e
os fragmentos de louça e telha romana aparecem em abundância e por uma larga
extensão, o que dificulta circunscrever as fronteiras da povoação. Em Penacova
a visita iniciou-se pela parte baixa, nos arredores da igreja paroquial, onde
uma mulher local o guiou até uma pedra onde se podia ler GAL e outro nome
começado por P ou R, não se percebe bem.
Figura 3 – Foto https://www.felgueirasdiario.pt/
Lá mais para o alto ficaria o
cristelo de São Veríssimo. O texto não é explicito, mas presumo que seja na
direção, ou mesmo, no que é o Senhor dos Perdidos. Diz Martins Sarmento que a
tradição popular lhe chama de cidade de Pegas, onde ainda existe uma fonte com
esse nome, diz o investigador. No percurso da igreja até ao cristelo, lugar de
Fróia (ainda existe uma rua de Fróia), encontrou um penedo coberto de terra e
por um grande calhau. Com a ajuda do proprietário, Manuel Leite, foi posto a
descoberto e puderam ser copiadas as letras nele inscritas. VNNG e mais à
direita GAL (com as duas últimas letras ligadas).
Martins Sarmento, reconheceu a
incapacidade de decifrar o escrito, mas intrigou-o encontrar duas pedras
próximas com a inscrição GAL: “posso dar conta da impressão que me causou ver o
mesmo nome repetido nas duas partes.” Logo a seguir diz que Argote fala de um
penedo onde reaparece a primeira parte de uma inscrição de Fróia, mas que não
lhe parece ser a mesma coisa.
Argote ou antes, Jerónimo
Contador de Argote, nascido em 1676 e falecido em 1749, foi clérigo e
historiador e em 1732 publicou “Memorias para a história ecclesiastica do
arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas” onde escreve:
“No monte de Christello, a pouco
mais de meya legoa do rio Visella, e duas de Guimaraens, no conselho de
Filgueiras, Freguesia de S. Verissimo, se vem alicesses de pedra lavrada, e se
tem tirado dalli muita quantidade, e entre ellas uma Estatua de pedra tosca,
que se conserva em casa de Manuel de Macedo Magalhaens, da quinta de Passos,
freguesia de Penacova, termo de Guimaraens, que seu avô Domingos Ramos tirou há
annos do monte acima dito, a qual não tem cabeça, nem pés, e o corpo he de
quatro palmos de alto, dous de largo, e hum de grosso.
Achaõ-se no sobredito monte
penedos toscos com letras Romanas; hum grande tem huma Inscripção para a parte
do Meyo diz, com estas letras.
IVNO
M—E ——IRVRNARVM
QVINTILIO ET PRISCO COS”
Diz o mesmo autor, na sequência,
que havia outras inscrições noutros penedos e acrescenta:
“Estas Inscripçoens humas estaõ
taõ resumidas, outras tam mal gravadas, e com taes charateres, que eu confesso
as não percebo” ...“A gente do Paiz diz, que antigamente houve alli huma Cidada
chamada Pegas, e dizem que para memoria disto se conserva alli huma presa de
agua, a que chamam a preza das Pegas”.
Figura 4 Imagens Google Maps da zona de estudo
A norte dali, na Bouça Nova uma
outra lage tem quatro linhas escritas. Na primeira lê-se CACALE sendo as outras
de difícil leitura. Esta Lage encontra-se nos nossos dias no Museu Martins
Sarmento estando catalogada com a inscrição:
CACALE
MATVTVME
DEIGADENE
BLENTIATVENO
Figura 5 Lage com inscrição CACALE, parte integrante da
coleção do Museu Martins Sarmento
Houve ainda, quem tenha dito a
Francisco Martins Sarmento que conhecia outra lage com uma inscrição mais
extensa. Ficaria mais a sul da Bouça Nova. Uma vez chegados ao local verificaram
que a rocha tinha aspeto de ter sido cortada e portanto, as inscrições já não
existiam.
Nesta passagem por Penacova,
Martins Sarmento também relata que próximo da capela do Senhor dos Perdidos há
um penedo, caiado de branco, encimado por uma cruz de ferro e chamado de
“Penedo dos Casamentos”. Funcionaria para adivinhação: colocando-se de costas
para o pendo atira-se uma pedra. Se ficasse em cima do penedo haveria
casamento.
Um outro autor, Eduardo Freitas em
“Felgueiras Rubias. Subsídios para a história do concelho de Felgueiras.”
Em 1960 situa o Cristelo de Argote no monte entre Penacova e Lagares. Diz
tratar-se de um patamar na cota dos 400m, junto do qual se regista microtopónimo
Casas Velhas de Pegas e que a poente, existe um cabeço mais elevado a que o
povo chama de Castelo dos Mouros. Aí observam-se penedos grandes com algumas
inscrições. Na vertente norte do Castelo de Mouros, um lugar chamado Fróia onde
ficaria a Bouça Nova.
Estes autores ainda estavam longe
de saber o que viria a suceder em 1972. Em Penacova, ao proceder-se à
terraplanagem de um terreno com uma escavadora, começaram a aparecer dezenas de
moedas de prata. Rui M. S. Centeno e J. M. Mendes Pinto, em “Novos dados sobre
o tesouro do Monte do Senhor dos Perdidos (Penacova, Felgueiras)” dizem que
nesse local, na encosta do Monte do Senhor dos Perdidos, há muito que se sabia
da existência de vestígios de um castro, sendo habitual o aparecimento de muros
enterrados e de fragmentos cerâmicos e tégula, popularmente conotados com
romanos e “Mouros”.
A notícia espalhou-se rapidamente
e as moedas foram procuradas e adquiridas por vários interessados,
colecionadores e curiosos. De tal forma
que, a 15 de Setembro a Direção Geral dos Assuntos Culturais do Ministério da
Educação enviou um ofício à Câmara de Felgueiras dando instruções para impedir
a destruição da estação arqueológica e recolher o máximo de informação sobre o
achado. Na altura a Câmara de Felgueiras pediu ajuda à GNR para averiguar o
achado.
Foram referenciadas 11 pessoas
que detinham ao todo 41 moedas, a que se acrescentaram depois mais 25 já
compradas pela Câmara Municipal. Não se sabe ao certo, mas estima-se que o
achado, o “tesouro do Monte do Senhor dos Perdidos”, teria mais de 100 moedas.
Em 1987 foi feito um primeiro
estudo sobre as 25 moedas na possa da Câmara. Depois em 1989 a propósito da
inclusão da carta arqueológica no PDM, descobriu-se várias moedas em posse de
particulares. Em consequência, conseguiu-se reunir no total 60 moedas a serem
estudadas, tendo os resultados sido publicados no artigo já referenciado. A
moeda de emissão mais antiga é de 130 aC e a mais recente de 41 aC. Muitas
delas têm marcas de punção que era uma técnica utilizada para verificar a
qualidade do metal. Outro resultado que interessa; pelo desgaste das moedas,
foi possível estabelecer a data da ocultação deste conjunto, apontando para os
últimos anos do reinado do imperador Cláudius I que reinou até 54dC.
Sobre a cidade de Pegas a que
Argote se refere, não consegui encontrar nada mais. Não deixo, porém, de
lembrar que o Senhor dos Perdidos, dista em linha reta, aproximadamente 5km de
Vizela, onde é conhecida a existência de múltiplos achados romanos e alicerces
de mosaicos ainda enterrados sob o atual centro da cidade. Esta linha reta que
separa os dois pontos está orientada de Noroeste para Sudeste. Também a cerca
de 5km, agora numa linha Sudeste para Nordeste fica a Villa Romana de Sendim,
no sopé do Monte do Crasto em Sendim, Felgueiras. Esta Villa foi descoberta em
1992 e escavada sistemática a partir de 1997 e encontra-se visitável.
Figura 6 – Triângulo Vizela (Oculis Calidarum) e Senhor
dos Perdidos e Villa romana de Sendim
Figura 7 Villa Romana de Sendim – Fotos https://visitfelgueiras.com/
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