Quem lê Júlio Damas em Vizela Tàgilde e São Gonçalo, encontra a dado momento: “De Braga e Guimarães para cá seguia uma via ocupando parte do caminho vicinal que passa perto do Santo Amaro, Nespereira, Botica Velha, Rechã, etc., bifurcando-se para Oeste-Noroeste, pelo Hospital e Moreira, seguindo pelo antigo caminho da Pedralonga, dividindo-se em duas direções: - A 1.ª pela rua do Monte (Mata) e Ponte Velha, subdividindo-se neste ponto para Vilarinho, S. Fins de Ferreira (castro), Roriz, Paços de Ferreira, Penafiel, Entre os Rios, Porto, etc., e Mourisco, Santa Eulália de Barrozas, Lamego, etc.; a 2.ª pelas antigas ruas Dr. Bráulio Caldas, Pereira Caldas, Lameira, Abade de Tagilde, Felgueiras, etc. Até se encontrar com a via principal para Trás-os-Montes nas proximidades de Amarante.” É deste parágrafo que fazemos ponto de partida do entendimento das vias primitivas desta região.
É indispensável consultar os estudos de Pedro
Soutinho, conhecido investigador de Vias Romanas. Fica evidente que Bracara
Augusta, atual cidade de Braga, era o centro de uma rede radial de vias do
noroeste da Península Ibérica. Aí convergiam vias de ligação à atual Vigo, a
Ourense, a Chaves (Aquae Flavie), a Marco de Canavezes (Tongobriga) e Porto.
A via de Bracara Augusta para
Tongobriga atravessava o rio Vizela na Ponte do Arco, em Vila Fria, nas
proximidades de Pombeiro. Tongobriga era uma civitas romana, isto é, uma
comunidade urbana dotada de alguma autonomia política e administrativa, onde se
articulava a vida social, económica e religiosa da região envolvente.
Esta Via para Tongobriga era
proveniente de Bracara Augusta, dirigia-se pelas imediações da região que hoje
corresponde à cidade de Guimarães, mas que à época ainda não existia como
povoado urbano. Cruzava o rio Ave pela ponte romana de Campelos, prosseguindo,
possivelmente, para Santiago de Candoso e depois Mascotelos (Santo Amaro). A
partir daí, por Covas, atravessava a serra de Santa Catarina (Penha), por
Pinheiro, Abação e depois por Calvos, em direção a Vila Fria e Pombeiro. É
precisamente em Vila Fria, logo após a travessia do rio Vizela na Ponte do
Arco, que subsiste ainda um pequeno troço da antiga calçada romana.
(Ponte do Arco e Calçada Romana fotos: https://visitfelgueiras.com/)
A partir de Mascotelos, Santo Amaro,
derivava uma via em direção a Cale (Porto). Esta via seguia por Nespereira,
sobrepondo-se em parte à atual EN105, passando por Venda Velha (a atual rua que
liga a igreja de Santo Amaro a Nespereira), Casas Novas e, já em Conde São
Martinho, pela rua do Arco até à atual capela de Santa Lúzia. Daqui, tomava
rumo até cruzar o rio Vizela na ponte romana de Negrelos, prosseguindo depois
por São Martinho do Campo.
Estão pois identificadas, as duas
principais vias romanas que “roçam” o Vale do Vizela, uma a montante e outra a jusante. Mas, Pedro
Soutinho também identifica um itinerário de Oculis Caldarum (Vizela) até
Magnetum (Meineido – Penafiel). Refere
que esta via nascia também em Mascotelos, seguia para Infias por Polvoreira e
pelo Monte de Lijó, “continuando por Bouça da Quinta para Infias (topónimo
Quinta da Carreira), seguindo depois a meia encosta pelas ruas do Caniço, do
Carvalhal, das Veigas, do Bacelo e da Vinha atendendo à inscrição votiva ao
Genius Laquiniensis, actualmente no MSMS com o nº 36 que apareceu na rua do
Aidro junto do lugar de Sub Carreira, topónimo viário que indicia a passagem da
via na base da Igreja de São Miguel junto do cemitério até desembocar na zona
urbana de Vizela.”
(Ara Votiva MSMS nº 36: https://www.csarmento.uminho.pt/)
Uma nota para esclarecer que
Pedro Soutinho escreve Oculis Caldarum e não Oculis Calidarum como é mais
comum. Pensamos que ambas são válidas, porém a segunda forma é mais adequada
por seguir uma gramática latina clássica. Em todo o caso sempre que nos
referimos a documentação com origem em Pedro Soutinho optamos pela primeira e
em outras circunstâncias pela 2ª forma.
Em Oculis Caldarum seguiria, pelo que
chama, Ponte Medieval de Vizela (por e, citamos “sem indícios romanos”) e, na Margem
esquerda pela rua Joaquim Sousa Oliveira até Cruz Caída onde entronca na EN106.
Refere que seguia junto às quintas de Rielho e de Sá, mas também Portelas,
Senra, Carreira Chã e Baixinho. Seguiria daí em diante, essencialmente pelo
percurso da EN106.
E começam aqui a surgir dúvidas, mas
também pontos de encontro entre o paragrafo de Júlio Damas e a extensa
descrição de Pedro Soutinho. Portanto, segundo Soutinho a via que atravessaria
a atual cidade de Vizela, procedia de Santo Amaro, por Polvoreira e Infias.
Entraria na atual malha urbana pela Igreja Velha de São Miguel. Já em Júlio
Damas, embora a leitura seja menos clara, parece subentender-se que a estrada
proveniente de Santo Amaro se dividia em duas: uma pelo Hospital e Moreira, e
outra pelas ruas Pereira Caldas e Lameira. A primeira variante — Hospital e
Moreira — “seguia pela rua do Monte (Mata) e Ponte Velha e, à frente,
dividia-se para Vilarinho e Santa Eulália”. É possível que se trate de uma
derivação em São Martinho do Conde, na capela de Santa Lúzia, em direção à rua
do Mato, já em São Miguel, pela rua Filipe, descendo depois pela rua da Lage
rumo ao Hospital. Poderia atingir a atual rotunda dos Bombeiros Voluntários,
pela rua da Rechã, e daí seguir pela rua Latino Coelho até à Ponte Velha.
(Ponte do romana de Vizela e rua Latino Coelho fotos: https://www.vizela.pt/ e Google Maps)
Façamos um parêntese para reflexão. Parece
natural que, para estudar vias primitivas, se recorra a documentos da época, a
achados arqueológicos, nomeadamente aras funerárias (uma vez que na civilização
romana estava instalado o hábito de sepultar os mortos fora das localidades e
ao longo das vias) e ainda a escritores antigos, mas também à observação do
território atual. Com efeito, o estudo das “ruas velhas”, das casas mais
antigas e dos eixos viários que ainda hoje estruturam a malha urbana pode
sugerir a persistência de trajetos primitivos, refletindo muitas vezes a
continuidade de percursos estabelecidos já em época romana ou mesmo pré-romana.
Nesta lógica, aliando indícios das
investigações de Pedro Soutinho e Júlio Damas, à observação local, propõe-se a
hipótese desse percurso, rua da Mata, rua da Lage, rua da Vista Alegre, rua da
Rechã e rua Latino Coelho ser uma das vias primitivas romanas para alcançar o
território da atual cidade de Vizela. A outra hipótese, as quais possivelmente
coexistem, é a de Pedro Soutinho que diz que a via romana até Oculis Caldarum,
com base em indícios de antigos povoados, nomeadamente Lujó e igreja Velha de
São Miguel. Acrescentamos a esta hipótese, que parece evidente a descida à
Lameira (onde se situavam os banhos romanos) pela antiga rua António Pereira da
Silva. Uma vez na Lameira, esta via confluiria com a primeira na rua Latino
Coelho.
(Necrópole
– Igreja Velha e mosaico romano- Lameira fotos: Francisco
M. V. Reimão QUEIROGA)
De novo, Júlio Damas afirma “pelas antigas ruas Dr. Bráulio Caldas, Pereira Caldas, Lameira, Abade de Tagilde, Felgueiras, etc. até se encontrar com a via principal para Trás-os-Montes nas proximidades de Amarante”. Assim, sugere que, da Lameira, pela atual avenida Abade de Tagilde, seguia uma via primitiva em direção a Felgueiras.
(Mapa de hipótese de vias primitivas em Vizela por Jorge Miranda)
Interessa nesta fase, ainda que
custe tornar este artigo longo, entender como seria a ocupação deste território
no período romano. Ela continuou a assentar nas antigas povoações castrejas que
entretanto se romanizaram mas que, no essencial, foram mantidas. Portanto no
Vale do Vizela, são referidos, o castro do Monte da Tocha e os cristelos de
Regilde e São Veríssimo. Os castros, dos quais estes são exemplo, situavam-se
geralmente em elevações. É possível, que com a romanização, estes povoados
tendencialmente se tenham estendido para os vales.
Outros aglomerados surgiram,
também chamados de vici, ao longo de vias ou rios, com funções de entreposto
comercial, oficinas ou paragens para viajantes, integrando população mista
(libertos, escravos, locais romanizados). Oculis Calidarum seria um vici,
nascido da confluência das águas quentes com um ponto de passagem de uma via
romana, portanto um ponto de paragem para viajantes alavancado pela também
função termal. Seria o desenvolvimento deste vici termal que foi dando origem a
um povoado maior e, de certa maneira justificando a necrópole visigótica
escavada junto à igreja velha de São Miguel.
Existiam ainda unidades rurais,
as villae rurais, que consistiam em pequenas explorações agrícolas com uma
habitação principal e dependências para trabalhadores ferramentas e animais.
Geralmente existiam em zonas férteis e circundadas de campos de cultivo. Não
existem indícios claros destas villae rurais na região, contudo, o aparecimento
de uma ara votiva em Tagilde, está longe de ser suficiente para nos indiciar
uma villae rural, contudo de algum modo leva a crer na possibilidade de alguma
ocupação.
(Ara Votiva – Tagilde - MSMS nº
34: https://www.csarmento.uminho.pt/)
Dentro do atual município de
Vizela, a única povoação pré-romana, ou pelo menos com indícios consistentes, é
a do castro no monte da Senhora da Tocha. É razoável imaginar que esse núcleo
tenha persistido, ainda que com configuração distinta, o que justifica a
existência de uma ligação ao centro de Oculis Calidarum, então em
desenvolvimento. Naturalmente, uma via coincidente com a atual estrada de
Lagoas teria atravessado o rio em direção ao monte da Tocha.
E onde seria essa travessia do
rio? João Gomes de Oliveira escreveu em 1894:
“Com tres arcos, solidamente
construida, é denominada a Ponte Nova, e está situada quasi no centro da linha
nascente-poente d'esta freguezia, dando passagem para um casal e algumas terras
desta parochia, sitas além do rio, e para a freguezia de Santo Adrião de
Vizella… Ignora-se a data da construcção desta ponte. Torquato Peixoto
d'Azevedo, que escreveu em 1692, não a menciona nas Memorias resuscitadas da
antiga Guimarães, relacionando algumas de menor importancia, o que nos deveria
convencer da sua não existencia nesta época, se este escriptor fosse dígno de
inteiro credito. Nos articulados d'uma sentença, de que abaixo se fala,
escriptos em 1735, faz-se menção d'ella; não conhecemos indicação mais remota.”
Esta Ponte Nova, em pedra, de 3
arcos, 2 talhamares e tabuleiro em arco não seria certamente uma infraestrura
das vias primitivas romanas. Mas é o próprio nome “Ponte Nova” que nos oferece
uma pista arqueológica: se há uma ponte nova, existiu uma velha — e ela
persiste. Alguns metros a jusante, junto à Quinta da Ponte Velha. A antiga
ponte, ainda em uso e precisamente denominada de Ponte Velha, terá tido outas
designações, como Ponte das Taboas segundo Abade de Tagilde, ou ainda pinguelas
de Lamellas, conforme tombo da freguesia de Samto Adrião em 1548. O mesmo João
Gomes de Oliveira escreveu “de madeira, situada a poente e quasi no extremo da
freguesia, denomina-se a Ponte Velha e já existia no seculo XIV, e quem sabe
desde quando, com a denominação de Ponte das Taboas, pois em 5 de junho de 1352
o cabido de Guimarães tomou posse d'um casal situado junto aos Paços de
Lourosa, que chamam de Ponte das Taboas, pertencente a Ruy Vasques Pereira, na
freguesia de Santo Adirão, para onde a dita ponte dá passagem.”
(Ponte Nova e Ponte Velha -
Fotos: https://www.digitaldevizela.com/ e Jorge Miranda)
Até à segunda metade da década de
1970, esta ponte conservava a sua estrutura primitiva: um tabuleiro de tábuas
assente em dois torreões de pedra no leito do rio. Foi nessa época, que um
grupo de locais se juntou e fez a substituição por um tabuleiro de cimento com
estrutura de vigas e tijolo de abobadilha, que ainda hoje subsiste. A Ponte
Velha era o acesso à igreja de Santo Adrião para os moradores de Lagoas, cujo
percurso, desde a estrada Vizela–Tagilde, passava pela atual rua da
Independência (que era uma“ barroca”), e, na margem direita, por um caminho
estreito que, vindo da quinta do Paço, subia pela margem do rio até um pouco antes
das ruínas dos moinhos de Lamelas. Dai, por outro “barroco” em direção à igreja
de Santo Adrião.
Ora, a igreja paroquial de Santo Adrião fica no sopé do Monte da Senhora da Tocha. É muito provável, como defende Júlio Damas, que daqui seguisse uma via em direção a Felgueiras, possivelmente intercetando a via romana nas proximidades de Pombeiro. Talvez, permitindo a ligação ao cristelo de Santa Comba de Regilde e cristelo de São Veríssimo em Penacova. Este caminho, não seria mesmo mais do que isso, um caminho difícil e sem condições para grandes cargas. Parece mais ou menos claro, que a necessidade de melhores vias de comunicações ditaram, possivelmente, já depois da idade média, a construção da Ponte Nova.
O Abade de Tagilde, num levantamento de vias que atravessavam a paróquia identificou das Azenhas e Ponte Velha, dos Pocinhos à Ponte Velha, não sendo mais do que a “barroca” já referida. Também a estrada do Arco do Pombeiro a Vizela. Iniciando em Tagilde na bouça do Covelo, em frente à ponte da Ribeira e terminando nos Pocinhos. Este levantamento de 1894, de alguma forma traz alguma consistência para acreditar que o caminho que conduzia à Senhora da Tocha pela Ponte Velha, derivava nos Pocinhos (atualmente rotunda da Porta de Ferro) e prolongava-se na margem direita do rio, permitindo a ligação a possível unidade rural em Tagilde e, entroncando depois a via principal de Bracara Augusta para Tongobriga nas imediações da Ponte do Arco.
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