6.2 - Ponte da Cascalheira
Júlio César Ferreira nos
seus fotoblogues identifica a ponte da Cascalheira como sendo vestígio
arqueológico da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá, não
encontramos porém qualquer outro autor que fizesse referência ao assunto. Ainda
procuramos no blogue Dias com Árvores a transcrição de um texto de José Duarte
de Oliveira publicado em 1886 no Jornal de Horticultura Práctica e que relata
as obras então a decorrer para a construção do parque das termas. Ora estas
grandiosas obras, um dos mais importantes trabalhos de jardinagem feitos no
país conforme palavras do autor, situavam-se na margem oposta da quinta da
Cascalheira e decorreram menos de um século depois da edificação da fábrica de
papel, tínhamos por isso a expectativa de que nos desse pistas quanto à
existência ou não da ponte da Cascalheira, porém omite-a por completo. Talvez
possamos entender a omissão no relato das obras significa que a ponte não fez
parte destas. Na memória colectiva local a fábrica de papel e o parque das
termas foram as maiores intervenções que ocorreram no local, juntando-se nos
nossos dias o empreendimento imobiliário do Poço Quente e requalificação
ribeirinha. Para o nosso estudo juntamos ainda fotos do local nos primeiros
anos do século XX onde se vê a ponte da Cascalheira já edificada.
A ponte da Cascalheira esteve
até 2009 sem utilização e só após intervenção de reconstrução se transformou em
ponte pedonal. A estrutura original consistia em duas vigas de ferro fundido em
H constituídas por várias lâminas unidas e rebitadas entre si. O comprimento
total é de quase 20 metros e sensivelmente 1 metro de altura. Estas vigas
paralelamente colocadas e também distanciadas a sensivelmente 2 metros uma da
outra eram travadas entre si por sucessivas longarinas cruzadas. Ambas assentam
nas margens em dois paredões graníticos que se assemelham a torreões. Estas
vigas encontram-se sob o actual tabuleiro mas não fazem parte da nova
estrutura.
O tipo de construção era
invulgar à época da fábrica da Cascalheira e remete-nos a uma outra
investigação: qual a cronologia do uso do ferro em edificações? Soubemos que
foi em 1776 que pela primeira vez se utilizou ferro na construção de pontes e
aconteceu em Inglaterra, contudo a sua massificação só viria a acontecer a
partir da segunda metade do século XIX. Ora por volta do ano 1800 seria de
esperar que uma ponte particular fosse construída em pedra e madeira. Seria
então possível que a ponte da Cascalheira tivesse pertencido à fábrica de
papel?
Vamos recuar ao estudo de
Rui Moreira de Sá segundo o qual a fábrica não chegou a ser construída na totalidade
pelo que o canal que provinha da quinta de Lagoas nunca chegou a ser construído.
No terceiro capítulo destes apontamentos aquando da abordagem aos contratos de
compra e venda celebrados por Francisco Joaquim Moreira de Sá fizemos referência
às indemnizações previstas pelos prejuízos causados pela construção do canal.
Em consequência os herdeiros de Moreira de Sá entenderam que deviam ser
ressarcidos pois se o canal não foi construído os prejuízos também não
ocorreram. A 6 de Janeiro de 1838 Valentim Brandão Moreira de Sá Sotomaior em
representação de Maria Bebiana de Carvalho e Costa viúva de Miguel António
Moreira de Sá e seus filhos menores juntamente com o Reverendo José de Abreu
Cardoso Teixeira Cónego da Colegiada da Oliveira, Guimarães, como cabeça de
casal da herança de seus país, os donos da quinta de Lagoas celebraram, em
escritura pública contrato para restituição de 350 mil reis. Porém como do negócio
com Francisco Joaquim Moreira de Sá tinha feito parte a compra de muitas
madeiras para a construção da fábrica foi ajustada indemnização para 242 mil
reis. Reportando a quinta de Lagoas ao actual lugar com o mesmo nome esta
ficaria na margem direita do rio portanto a montante da quinta da Cascalheira e
na margem oposta. Ora todas as madeiras teriam de ser transportadas para a
futura fábrica. Claro que as podiam fazer atravessar o rio lançado-as ao mesmo
para depois serem içadas através de cordas, mas isso não podia ser feito no
Inverno nem resolveria de forma definitiva o abastecimento de materiais à
fábrica. A ponte mais próxima seria a romana aproximadamente 1km a jusante da
quinta da Cascalheira, fazia então todo o sentido a existência de uma ponte
contígua à fábrica e que fosse suficientemente robusta. Recordemos que a
fábrica iria produzir papel através de material lenhoso, lenhas e madeiras que
teriam que chegar à fábrica em quantidade suficiente para a sua laboração.
O transporte de madeira
pode ter sido um dos motivos para a existência de uma ponte robusta próxima da
fábrica mas seria possível em 1800 proceder à sua construção em ferro? Ora
cronologicamente já vimos que é possível embora o uso do ferro não fosse ainda
uma constante. Homens com essa vontade também teríamos pois sabemos que
Francisco Joaquim Moreira de Sá era vanguardista quanto à introdução de novas
tecnologias e profundo admirador do movimento de industrialização inglês onde
cerca de 30 anos antes se havia construído a primeira ponte em ferro. A este
podíamos ainda juntar o director técnico da fábrica, o engenheiro inglês Thomas
Bishop. Construir em Portugal uma ponte como a da Cascalheira em 1800 não seria
fácil pois é pouco provável que existissem fundições no nosso país para o
fabrico dos elementos necessários. As barras de ferro da ponte terão então sido
transportadas de Inglaterra para Vizela.
É uma teoria mas faltam-nos
conhecimentos suficientes para a confirmar, em todo o caso a ser verdade a
ponte da Cascalheira terá sido uma das primeiras, senão a primeira a ser
construída em ferro em Portugal. Claro que não se trata de uma pequena ponte
mas pode significar muito arrojo tê-la construído em ferro.
Voltando ainda a Júlio
César Ferreira e ao seu arquivo fotográfico, nele consta um postal que regista
uma panorâmica da quinta da Cascalheira sendo que no local que corresponderá ao
actual bar de apoio à praia fluvial existe um amontoado de pedras que o próprio
supõe serem ruínas da fábrica. Entretanto em notas de Fernando Moreira de Sá
Monteiro no site Geneall reportando ao manuscrito “Os Sás de Vizela: Moreiras
de Sá – Memórias históricas, genealógicos e heráldicas” é feita uma referência
a um inventário requerido em 1842 por D. Maria Marfida Moreira de Sá, neta de
Francisco Joaquim Moreira de Sá no qual consta a grande casa da fábrica de papel
e a herdade da quinta da Cascalheira onde a dita casa está erigida. Sem
inequívocos confirmamos que o edifício da fábrica sobreviveu às invasões
francesas.
Em 1886, José Augusto
Vieira em o Minho Pitoresco relata os encantos de Vizela e deixa-se embebecer
pelos namoricos na praia fluvial da Cascalheira. O autor vem pela igreja de S.
João e atravessa pelo parque em construção para passar um fim de tarde bucólico
na Cascalheira. O autor relata como os afoitos atravessam o rio na Cascalheira,
pé entre pé, saltitando pelas pedras até ao moinho na margem esquerda. Nada de
ponte! Nada da grande casa da fábrica! Só um moinho! As personagens dos relatos
de José Augusto Vieira que se aventuram a atravessar o rio por entre as pedras
são novos e caídos de amores, é por isso entendivel o romantismo de tal
travessia. Já os mais velhos e gordos, como diz o autor, não se atrevem a
passar e deixam-se ficar deitados à sombra na margem direita, porém se a ponte
estivesse ao pé provavelmente seria atravessada a menos que, como antes da sua recuperação em 2009, não tenha utilização
possível pela falta de tabuleiro. Não temos memória dela de outro modo.
Estamos pouco convencidos
de que a ponte existisse em 1886 e assim se arruína toda a teoria de que esta
seja o único vestígio da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Vejamos
que certamente José Augusto Vieira a não omitiria nos seus relatos até porque
marca vincadamente a paisagem da Cascalheira e também porque certamente, como
na nossa meninice, ela seria usada como plataforma de mergulhos para o rio e
José Augusto Vieira dificilmente resistiria a tal descrição. Também parece
ficarmos convencidos de que nesta data a grande casa da fábrica de papel já não
existiria porque do mesmo modo, a estar deitada ao abandono, seria cenário de
passeio dos enamorados. Contudo, conforme o inventário já referido 40 anos ela
estaria lá, e decorrem em 1886 as grandes obras do parque das termas onde foram
gastas largas toneladas de pedra para emparedar as margens do rio Vizela. Faz
algum sentido pensar que a pedra usada nesta obra tivesse sido a da grande casa
da fábrica de papel? Julgamos que sim pois a grande casa já há muito que
deixaria de ter utilidade e a venda da pedra poderia constituir fonte de
rendimento para a família dos Moreira de Sá, mas isto são suposições.
Em Abril de 2011
foi notíciado pela Rádio Vizela que durante a demolição da antiga fábrica da
Caravela terá sido colocado a nú vestígios da primeira fábrica de papel da
Europa (?). A notícia está certamente envolta em equívocos, desde logo alguma
confusão com o que designam primeira fábrica de papel da Europa, ora deveriam
querer dizer, primeira fábrica do mundo a produzir papel com pasta de madeira,
pois referem a sua existência em 1800. Depois relacionar o achado com esta
fábrica terá sido precipitação pois todos os documentos a indicam na quinta da
Cascalheira local bem definido cuja denominação chegou aos nossos dias e que se
localiza a montante deste local a uma distância de cerca de 800m. A antiga fábrica
da Caravela situava-se na margem esquerda do rio em lugar conhecido, pelo menos
até final do século XIX, como Pisão. A Caravela terá sido construída naquele
que foi o edifício primitivo da Sedas de Vizela, mas antes, nesse local
funcionou a Augusto Inácio da Cunha Guimarães, indústria de cutelarias e pentes
que usava como matéria prima hastes de gado bovino. Segundo os autores
Francisco da Silva Costa e José Manuel Lopes Cordeiro, ambos investigadores da
Universidade do Minho, em «PATRIMÓNIO
HIDRÁULICO E ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL: O CASO DO RIO AVE NO NOROESTE DE PORTUGAL», Augusto Inácio da Cunha Guimarães em 1918
requereu ampliação da sua fábrica reconstruindo o açude e rodas hidráulicas.
Ainda segundo os autores esta obra marcou a paisagem industrial de Vizela. Julgamos
que o açude imediatamente abaixo da ponte D. Luís seja o que serviu esta
fábrica. Pensamos então que os vestígios encontrados na demolição possam ser
desta antiga indústria e não da fábrica de papel.
Voltemos agora para as
fábricas erigidas em Moreira de Cónegos. De novo Júlio César Ferreira nos dá
conta dos respectivos locais nas suas reportagens fotográficas. Para a fábrica
localizada em Ante-Vilar apresenta-nos um edifício em pedra em estado de quase
ruína e para segunda fábrica as actuais instalações da Têxtil de Vizela. Sai
fora dos propósitos destes apontamentos a investigação no terreno e não tendo
conseguido outras informações não nos vamos deter na análise da sua
localização.
(continua)
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