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3 - Fábrica de Papel da
Cascalheira
Das fábricas de papel do rio Vizela, a da Cascalheira não foi a primeira,
porém Portugal fez história pela primeira vez em contexto industrial. A fábrica
foi uma referência tecnológica a nível mundial utilizando-se pela primeira vez,
pelo menos à escala industrial, massa de madeira para o fabrico de papel.
A escritura da fábrica de papel da Cascalheira foi assinada em 28 de Abril
de 1804 por Francisco Joaquim Moreira de Sá e outros 6 sócios. Os preparativos
para a edificação desta fábrica foram iniciados alguns anos antes. Rui Moreira
de Sá e Guerra em "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira
na Quinta de Sá" disso nos dá conta.
Francisco Joaquim Moreira de Sá em 1798, a 15 de Janeiro, vendeu a José
António Teixeira, homem de negócios da vila de Guimarães, e a sua esposa Teresa
Álvares de Abreu Cardoso, os direitos de arrendamento dos Casais do Bôco em
Tagilde, cujo senhorio era o Abade de Tagilde, 69 medidas de pão e Vinho, 30
arráteis de marrão e 50 reis em dinheiro, pelo preço de 505 mil reis. Neste
contrato ficou previsto receber apenas 155 mil reis ficando os restantes 350
retidos pelos prejuízos que a construção da fábrica causaria às moagens da
Quinta de Lagoas na margem direita do rio Vizela. Moreira de Sá pretendia
levantar o rio acima da última levada dos moinhos e azenhas da Quinta de Lagoas
para a nova passagem da água para a fábrica cuja construção havia principiado
mais abaixo. José António Teixeira e sua esposa, ao abrigo deste contrato,
consentiam estas mudanças e vendiam a servidão dos campos e leiras, da Quinta
de Lagoas, necessárias à construção do canal que teria 12 palmos de álveo.
Moreira de Sá construiria ainda pontilhões sobre o canal para passagem a pé e
de carro para os campos de um lado e outro. Esta escritura foi lavrada pelo
tabelião de Guimarães Nicolau Pereira. Na mesma escritura está ainda assente
que se edificaria um arco sobre o rio que seria uma servidão particular para
limpeza do canal e guiar as águas e que na margem esquerda teria uma porta que
fechasse a passagem.
Dois anos depois, a 9 de Agosto de 1800, Moreira de Sá vendeu a Francisco
José da Costa de Margaride, Felgueiras, quinze alqueires de milhão, meio almude
de vinho, três galinhas e 40 reis em dinheiro pelos campos da Casa Nova, na
Corredoura freguesia de Margaride. Pela venda recebeu 136 mil e 800 reis.
Os contratos estudados por Rui Moreira de Sá e Guerra são uma indicação da
grandiosidade do empreendimento, desde logo pela necessidade que o empreendedor
teve em vender propriedades para se munir dos necessários recursos financeiros.
Francisco Joaquim Moreira de Sá era um homem rico que pertencia à nobreza e
próximo da Corte pelo que todos os preparativos financeiros reforçam a grandeza
da fábrica de papel que viria a construir. Por outro lado o primeiro contrato
elenca com algum detalhe todo um conjunto de obras hidráulicas em projecto para
o abastecimento de água à fábrica. A própria escritura de fundação da fábrica
faz transparecer a dimensão do projecto, primeiro pela quantidade de sócios
envolvidos, José Pereira Ferraz, Manuel Luís da Costa, José Ventura Fortuna,
José Pereira Ferraz Araújo Ribeiro, Flórido Pereira Ferraz e Thomas Bishop que
também seria o director técnico, e segundo pelas descrições que faz do
projecto.
«..tendo determinado estabelecer huma Fábrica de papel… tinha construído a
Casa e canal para o Laboratório dela». continua dizendo que é com esses bens
que Moreira de Sá entra para a sociedade «com a caza que tem edificada para a
mesma Fábrica e Laboratório das Máquinas, a qual tem trezentos palmos de
comprido e oitenta e dous palmos de largo alem dos respectivos corpos salientes
e com as duas cazas para a cola e escolha de materiais, cujas anda construindo,
que tudo porá prompto, e acabado a sua custa; bem como edificará às suas custas
as cazas que forem necessárias para armazéns do papel…» acrescenta que enquanto
não construir estes armazéns «cede interinanente das dez cazas que naquele
mesmo sitio tem para uso da lavoura; e igualmente fica obrigado a acabar a sua
custa o canal diversorio que conduz as agoas do Rio Vizella para as Rodas da
Fábrica…».
(continua)
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