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As Indústrias de Papel do Vale do Vizela e as suas Personagens (IV)



3 - Fábrica de Papel da Cascalheira

Em 5 de Janeiro de 1805, por alvará régio, assinado pelo Príncipe Regente e pelo Ministro da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, é concedida protecção Real à então designada Fábrica Real de Papel e de Tinturaria do Sá. «Eu o Príncipe regente Faço saber que sendo-Me presente, que Francisco Joaquim Moreira de Sá, proprietário da quinta denominada de Sá, sita na margem do Rio Vizella,... tem projectado construir na dita quinta huma Fábrica de Papel composto de matérias extrahidas de certas plantas, e ella anexa outra de Tinturaria,... tudo dirigido pelos vastos conhecimentos do hábil Tomaz Bishop, a quem tinhão convidado para a dita Sociedade... Attendendo a que esta empreza, pela sua importância, já demonstrada nos bons ensaios que apresentarão... era muito digna da minha imediata protecção; pois ainda que a arte de fazer papel de diversas fibras de vegetaes seja de tempo imemorial conhecida dos Chinas e Japonezes... com tudo os Emprendedores eram os primeiros Portugueses que se havião lembrado deste projecto.»

O alvará que acima se faz referência está disponível para leitura na integra no Google Books com base no livro “Collecção da legislação portuguesa desde a última compilação das ordebações” editado pela Tipografia Maigrense em 1826. Nele se diz ser invenção privativa de Tomaz Bishop o extrair de matéria fibrosa de vários vegetais para produção de papel que tornando assim desnecessário o trapo e que é concedida exclusividade da sua produção por vinte e cinco anos, fazendo parte desta exclusividade as manipulações já conhecidas e as que ainda se venham a descobrir ou novos usos fruto do aperfeiçoamento da técnica dado que ainda se está no início dessa descoberta. Nele também se descriminam as infracções a quem usurpar dos privilégios concedidos à Fábrica Real de Papel e de Tinturaria do Sá, sendo a multa para benefício do Hospital da Villa de Guimarães, ficando um terço para o denunciante caso o haja. São ainda concedidos outros privilégios semelhantes aos concedidos a outras fábricas, não pagando assim direitos de entrada pela maquinaria comprada no estrangeiro, nem direitos de saída pelos géneros que produzir e vender para fora do Reino.

Noutro documento anterior ao da escritura da sociedade, este datado de 13 de Dezembro de 1802 e assinado pelo príncipe regente D. João, é dada autorização para a construção da Fábrica Real de Papel e Tinturaria do Sá.

Francisco Joaquim Moreira de Sá preparava a construção da fábrica desde pelo menos 1798 e que, conforme se verificará mais à frente, em 1802 une-se a Thomaz Bishop para tão grandioso empreendimento. Conforme ditam os documentos assinados pelo Príncipe regente a invenção da produção de papel sem recurso ao trapo é da autoria de Thomaz Bishop, é por isso justo questionar se em 1798 Francisco Joaquim Moreira de Sá já planeava produzir papel sem utilização do trapo. O autor Rui Moreira de Sá e Guerra na sua publicação "A Prioridade do Fabrico de Papel com Pasta de Madeira na Quinta de Sá" conclui que desde pelo menos 1797 Francisco J. Moreira de Sá procurava soluções alternativas ao trapo para produção de papel e que a associação a Thomaz Bishop foi uma combinação de interesses comuns.

Diante destas conclusões pergunta-se como foi que Francisco J. Moreira de Sá e o inglês Thomaz Bishop chegaram ao conhecimento um do outro. Para esta questão também Rui Moreira de Sá e Guerra encontrou explicação. A primeira esposa de Francisco J. Moreira de Sá era parente afastada do Conde da Barca, António de Araújo Azevedo, diplomata por várias vezes representante do reino português em momentos marcantes da História da Europa. Em 1787 foi ministro extraordinário na corte de Haia e em 1795 foi ministro plenipotenciário em França. Foi-o novamente em 1797 e 1801. Em 1801 é também nomeado para a corte de São Petersburgo onde permanece por três anos. António de Araújo Azevedo era um homem de letras e ciência apaixonado pela industrialização. Segundo a Revista de História e Ideias volume 10 de 1988 em texto de Joaquim Pintassilgo “A Revolução Francesa na Perspectiva de um Diplomata”, desde Junho de 1789 António de Araújo Azevedo passa a percorrer atentamente a Inglaterra deslumbrado com as realizações industriais, numa época em que a Revolução Industrial estava no seu arranque. O Conde da Barca também seria amante das artes tipográficas pois em 1808, aquando da fuga para o Brasil com a coroa portuguesa sendo também acompanhado por Francisco Joaquim Moreira de Sá, levou consigo a sua livraria e uma tipografia completa que se transforma em 13 de Maio de 1808 em Imprensa Régia.

Segundo Rui Moreira de Sá e Guerra, António de Araújo e Azevedo estaria em Inglaterra em 1801 aquando da sua nomeação para São Petersburgo e terá sido nessa viagem que convence Thomaz Bishop a vir para Vizela para se associar a Francisco Joaquim Moreira de Sá e à sua fábrica de papel. Em 1802 é certo que Thomaz Bishop já habitava na Quinta de Sá e em 25 de Julho de 1803 nasceu, na Quinta de Sá, Luísa Francisca, filha de Thomas Bishop e sua esposa Tamzen Bishop sendo baptizada em Agosto do mesmo ano pelo vigário Joaquim Álvares Coelho de Avé Maria na igreja de Santa Eulália.

É possível que António de Araújo e Azevedo tenha sido mais do que um simples elo de ligação entre Thomaz Bishop e Moreira de Sá, pode ter sido o impulsionador do empreendimento que viria a nascer em Vizela, assim como também pode ter sido determinante para o seu arrasamento pelas tropas francesas em 1808. Durante a sua carreira diplomática entre 1795 e 1797 tentou negociar um tratado de paz com a França o que se revelou inconsequente. Pouco tempo depois, dada a gravidade da situação europeia, volta a ser enviado a Paris e em 10 de Agosto de 1797, consegue um acordo de paz que é anulado dois meses depois após hesitações de Portugal consequência da oposição britânica. Em sequência disso passou dois meses preso em França. Em 1807, já secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, recebeu intimação de Napolião Bonapart para fechar os portos aos navios ingleses e prender todos os súbditos britânicos em território nacional e demitisse o ministro inglês em Lisboa. Entretanto em Conselho de Estado venceu a posição de António de Araújo e Azevedo e Portugal acatou o pedido de fechar os portos mas não as outras condições. O futuro Conde da Barca era conhecido apoiante da causa francesa mas não foi suficiente para garantir a independência de Portugal. Ora estes acontecimentos também ditaram o encerramento precoce da fábrica de papel de Francisco Joaquim Moreira de Sá, porém a este assunto voltaremos em outro capítulo.

Voltando à escritura de 1804, existe na Sociedade Martins Sarmento uma cópia da referida escritura por oferta do Sr. Eng.º Moreira de Sá, que presumimos ser familiar descendente de Francisco Joaquim Moreira de Sá. Neste documento está devidamente clarificado que Thomaz Bishop possui conhecimentos e ciência na área de tinturaria, possivelmente mais do que na produção de papel, assim se entende: «E pelo outorgante Thomaz Bishop foi ditto que elle fora mandado vir pello sócio Francisco Moreira de Sá para fabircar o papel debaixo das suas instruçõens e operaçõens quimícas; e com effeito tem descoberto várias plantas e outras matérias para se fabricar sem dependência de trapos de que tem mostrado por experiência, e portanto está elle justo e contractado de ser o Director de toda a manipulação, tanto da Fábrica de Papel, como da Tinturaria, de que tem grandes conhecimentos e sciencia e isto pelo tempo de vinte e cinco annos…»

A sociedade tomou a designação de Ferraz Costa Fortuna e Companhia e como vimos não estaria apenas vocacionada para o fabrico de papel, pois ela também era de tinturaria. A escritura não  clarifica se a tinturaria se iria dedicar ao tingimento de papel ou tecidos mas transparece que seria uma actividade distinta da do papel, pelo que deveria ser de tecidos. A ser assim Francisco Joaquim Moreira de Sá além de ser pioneiro no fabrico de papel com massa de madeira, também terá criado uma das primeiras tinturarias de tecidos.

A fábrica de papel da Cascalheira não viria a ser construída na totalidade. Em 1808 sucumbiu às invasões francesas e o seu erector e António de Araújo e Azevedo acompanharam a Coroa portuguesa na fuga para o Brasil. Thomaz Bishop refugiou-se na América do Norte. Voltemos a este tema em próximos capítulos.

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